Tuesday, April 05, 2005

Aproveitando pra revisar a materia

*Faz falta por aqui um certo clima de contestacao que existia na Casper, na USP, nos meus grupos de amigos e mesmo em casa. Ta certo, muitas vezes me irritei com os exageros do movimento estudantil e com a mania de perseguicao do CA casperiano. Mas e muito bom viver com gente que quer mudar; mudar o mundo, mudar-se ou pelo menos remexer um pouquinho as coisas.
E logo eu, que vibrava ao ver minha vo de mais de 80 anos xingar o Fernando Henrique no jornal nacional, vim parar na terra do "ta bom pra mim ta bom, ta muito bom"... nhe... Mas nao vou reclamar no post de hoje nao, vou falar de uma coisa boa daqui.

*3:30 da tarde, tercas e quintas, aula de Politicas de Direitos Iguais. Metade dessa classe se diz conservadora, metade se diz liberal. De tempos em tempos, a discussao esquenta, meu ingles sofre pra acompanhar, mas da ate gosto de ter vindo pra ca ouvir.
A professora e esperta a beca. Nunca usa um termo descabido. No vocabulario e na atitude, parece isenta de qualquer juizo que nao seja o cientifico - o essencial pra falar de minorias sociais num terreno em que, qualquer deslize, provoca um briga danada na sala.
Hoje nao teve muita discordancia. O texto sobre direitos dos homossexuais talvez tenha sugerido a banda conservadora que ficasse em casa, e metade da sala nao apareceu (perderam, bobocas).
Ok, isso que eu aprendi e sobre a Nova Zelandia, mas conhecimento e sempre bom e bom de compartilhar.

*** O foco da coisa era a descriminalizacao da homossexualidade na Nova Zelandia, que so aconteceu (pasmei, nessa) no ano em que eu nasci. Nao faco ideia de como e no Brasil, mas nos paises que herdaram uma tal de Common Law, la da terra da Elizabeth, a relacao entre homens ou entre um homem e um garoto era descrita pela lei com essa sutileza: "malignidade mais profunda que um estupro", "desgraca da humanidade", "crime que nem deve ser nomeado". Ou seja, ate o meio da decada de 80, era como se a lei dissesse "Estupra, mata, mas nao seja gay" (conseguiu ser pior que a do Maluf, essa).
Nao vou ser muito detalhista pra contar que a homossexualidade por la foi descriminalizada. So fiquei pensando em uma coisa.
Eu aqui, pasma com o quanto demorou pra isso acontecer, mas quantas vezes eu ouvi alguem falar "quero que meu filho seja ladrao, mas nao seja gay"? Po, a lei la na Nova Zelandia esta ate adiantada demais, entao! Nao e incrivel que nossa sociedade nao aceite uma coisa que e estatisticamente normal? E olha que o primeiro a chegar a essa conclusao cientifica morreu em 1956... Somos o que, afinal? Ignorantes, cegos, medrosos ou burros?

**** Se um filho meu ou uma filha minha me falasse "Sou gay", eu ia, sim, ficar triste. Porque sei que ele ou ela ia sofrer o preconceito avassalador da nossa sociedade, e nao ia poder constituir uma familia se assim o quisesse - ver filho sofrendo contrariado nao deve ser muito legal.
Isso nao precisava ser assim se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse permitido, bem como se a um casal homossexual fosse dado o direito da adocao. Ou seja, se simplesmente passassemos a descomplicar o que e matematicamente normal.
Entao, eu nao digo que eu nao quero que meu filho seja gay. Eu nao quero e que sejamos tao idiotas em relacao a isso. E ou nao e?

*****Comentem, eu fiquei chupando o dedo na sala porque nao consegui pensar isso em ingles. Voces sao minha ultima esperanca! :(