Welcome to the world, darling...
*O que John Pope tem a ver com o papa Joao, aquele que morreu semana passada, alem do nome, e o fato do primeiro ter paricipado da cobertura jornalistica da morte do segundo. John Pope e reporter de obituarios do The Times - Picayune, de New Jersey. Seu papel, portanto, e falar da morte e dos mortos. Dos doentes as vezes. De suas familias e de tudo os que os rodeia. Temazinho danado, a barreira entre o informativo e o grosseiro-cliche, nesse tipo de materia, e tenue e invisivel. Questao de pura sensibilidade. Pelo menos eu acho.
Aconteceu que John Pope apareceu na minha aula de reportagem, na ultima quinta, pra falar de seu trabalho, meter o bedelho no nosso e dar as dicas que se espera que um premiado da Pulitzer possa dar.
Nas fotocopias de materias que John Pope trouxe eu via um bom trabalho. Por exemplo. Esse cara acompanhou os ultimos meses de vida de um doente de Aids em 1986, e o perfil que escreveu depois de sua morte comeca com essas aspas: "Eu sou um paciente de aids, nao uma vitima da aids". Num tempo em que o preconceito era grande, os remedios eram paliativos da dor, a materia tem imagens e frases fortes.
Engano meu.
John Pope, no alto de seus dois metros de altura (ele ainda fica mais alto por causa do nariz empinado que tem), enquanto discursava sobre suas aventuras em sala de cirurgias e necroterios (o "super-reporter"), deixou escapar (ou declarou de cara lavada mesmo) que costuma entrevistar os familiares de doentes terminais antes mesmo de sua morte.
Olha, eu ja ouvi muito absurdo nessas aulas de jornalismo daqui. Mas so pra confirmar se era isso mesmo, dessa vez, resolvi abrir minha boca. Segue o dialogo, escrito de cabeca 2 dias depois, mas e assim que eu lembro.
**Daniela: "Mas entao voce entrevista as pessoas antes do fato acontecer?"
John Pope: "Sim, e dificil encontrar todas as pessoas importantes pra materia depois de um fato como esse, entao se e um doente terminal eu costumo entrevista-las antes".
Daniela ja sacando que a resposta nao era boa: "Mas voce avisa isso pro leitor, entao?"
John Pope, ja sacando que ia ser pressionado: "E que diferenca isso faz?"
Daniela, indignada: "Mas por exemplo, essas aspas da mae do paciente de aids, dizendo que ela estava tranquila em relacao a morte do filho, voce pode ter apurado isso antes da morte? Mas e se quando realmente aconteceu ela se desesperou? Voce nao sabe?"
John Pope, aproveitando o momento de brilhar: "E que diferenca isso faz? As vezes voce escreve uma coisa e corre o risco de publicar o que nao e mais, mas tem que se precaver".
Daniela, de cara no chao: "Entao e como ligar pra alguem e dizer 'Ei, qual vai ser a sua declaracao quando seu filho morrer?'"
John Pope, colocando-me no meu lugar de estudante boba: "Bem vinda ao mundo, querida".
*** Que mundo e esse de que ele ta falando? Se ele me fala "bem vinda", e porque eu ja to dentro? Da pra sair ainda? Da pra ficar dentro e mostrar a lingua pra gente como ele? Chorei por causa do tal do John Pope. E deixei de ser jornalista pra sempre durante umas duas horas, de tanta raiva.
Aconteceu que John Pope apareceu na minha aula de reportagem, na ultima quinta, pra falar de seu trabalho, meter o bedelho no nosso e dar as dicas que se espera que um premiado da Pulitzer possa dar.
Nas fotocopias de materias que John Pope trouxe eu via um bom trabalho. Por exemplo. Esse cara acompanhou os ultimos meses de vida de um doente de Aids em 1986, e o perfil que escreveu depois de sua morte comeca com essas aspas: "Eu sou um paciente de aids, nao uma vitima da aids". Num tempo em que o preconceito era grande, os remedios eram paliativos da dor, a materia tem imagens e frases fortes.
Engano meu.
John Pope, no alto de seus dois metros de altura (ele ainda fica mais alto por causa do nariz empinado que tem), enquanto discursava sobre suas aventuras em sala de cirurgias e necroterios (o "super-reporter"), deixou escapar (ou declarou de cara lavada mesmo) que costuma entrevistar os familiares de doentes terminais antes mesmo de sua morte.
Olha, eu ja ouvi muito absurdo nessas aulas de jornalismo daqui. Mas so pra confirmar se era isso mesmo, dessa vez, resolvi abrir minha boca. Segue o dialogo, escrito de cabeca 2 dias depois, mas e assim que eu lembro.
**Daniela: "Mas entao voce entrevista as pessoas antes do fato acontecer?"
John Pope: "Sim, e dificil encontrar todas as pessoas importantes pra materia depois de um fato como esse, entao se e um doente terminal eu costumo entrevista-las antes".
Daniela ja sacando que a resposta nao era boa: "Mas voce avisa isso pro leitor, entao?"
John Pope, ja sacando que ia ser pressionado: "E que diferenca isso faz?"
Daniela, indignada: "Mas por exemplo, essas aspas da mae do paciente de aids, dizendo que ela estava tranquila em relacao a morte do filho, voce pode ter apurado isso antes da morte? Mas e se quando realmente aconteceu ela se desesperou? Voce nao sabe?"
John Pope, aproveitando o momento de brilhar: "E que diferenca isso faz? As vezes voce escreve uma coisa e corre o risco de publicar o que nao e mais, mas tem que se precaver".
Daniela, de cara no chao: "Entao e como ligar pra alguem e dizer 'Ei, qual vai ser a sua declaracao quando seu filho morrer?'"
John Pope, colocando-me no meu lugar de estudante boba: "Bem vinda ao mundo, querida".
*** Que mundo e esse de que ele ta falando? Se ele me fala "bem vinda", e porque eu ja to dentro? Da pra sair ainda? Da pra ficar dentro e mostrar a lingua pra gente como ele? Chorei por causa do tal do John Pope. E deixei de ser jornalista pra sempre durante umas duas horas, de tanta raiva.


<< Home