As tres daquela tarde
*Blem Blem Blem
Ele ouviu. Eram tres, o sol saia do pino, ele sabia porque podia ver e ouvir la da praca.
Quase toda vez fazia calor, e quando fazia muito, ele podia ver as sombras das arvores fazendo bichos no chao. Assim era o melhor jeito de enxergar: tinha que subir na jaboticabeira, as vezes era dificil subir, mas ja dos galhos do meio voce olhava o banco de areia e os bichos apareciam. Bichos que nao se gostavam ficavam ali, um do ladinho do outro, bem comportados, so sombreando. Um lobo pequenininho do lado de uma ovelhona. Quando aparecia um gato, dava pra fazer um cachorro com a mao mesmo.
Melhor se era outubro, porque as jaboticabas matavam a fome das cinco, e dava pra ficar na praca ate mais que seis. Em mes que a arvore estava vazia, so se aguentava ate umas 4 e pouquinho, que as cinco a vo podia fazer bolinho de chuva, e nao tem brincadeira no mundo que seja melhor que isso.
Mas naquele dia ainda eram tres, e o chato era que o primo dele, aquele meio bobo que ve muita teve, queria fingir que as sombras eram bichos feios do espaco. Ele la achava que tinha bicho no espaco, coisa viva vive na terra, ue, que no espaco so tem estrela quente e planeta gelado!
Mas pior que ter o primo era ter que ir na escola. Era estranho, mas tinha alguma coisa naquele sino da escola. Na praca, o sino da igreja cantava as horas tao bonito, e as horas passavam tao rapido, que parecia uma melodia sem fim, uma hora cantada depois da outra. Na escola o sino so berrava, berrava no ouvido dos alunos quanto tempo faltava pra saida.
Aquele dia a mae disse que ele nao precisava de escola, e ele nem tinha pedido. Falou pra ele ir pra praca com o primo.
Ela e a tia estavam na cozinha com os olhos molhados, pareciam que nao queriam crianca perto, entao ele foi. Talvez fosse por causa da visita, ele viu que chegou o homem de branco no quarto da vo, era tao de manha que o sol nem tinha saido ainda. O homem ele conhecia, ele tinha um aparelho de ouvir coracao e dava bala. Foi ele que falou pra mae ligar pra tia, a mae sempre obedece o que ele diz, mesmo que ele mande comprar xarope.
Ele ainda dormia quando a tia chegou, entao de manha achou o primo sozinho na sala com a teve ligada e nao entendeu coisa nenhuma. Estava na cozinha comendo bolacha quando a mae veio e deu um abraco, um abraco muito molhado. Parecia ate domingo, a casa foi ficando cheia de parente quando ele e o primo foram brincar.
Foi quando soaram as tres horas que ele pensou em tudo isso, e pensou de ir ver se a mae e a tia ja podiam contar porque elas tinham que ligar pra tanta gente e fazer tanto cafe naquele dia. Se as duas nao quisessem ver crianca, ele podia ficar com a vo. Podia ver os dedos dela enrolarem o trico e rir dos barulhos que ela fazia dormindo. Ela andava dormindo mais e mais, e quanto mais ela dormia, menos mimo ela fazia, e o menino ficava triste sem saber porque. Foi quando soaram as tres horas que ele pensou em ver a vo. "Sera que ela vai fazer bolinho hoje?"
Entao puxou o primo pra casa, antes que pudesse lembrar da praca, do sino, do tempo ou das coisas que se perdem quando os minutos se vao. Porque dessas coisas ele ainda nem sabia.
Ele ouviu. Eram tres, o sol saia do pino, ele sabia porque podia ver e ouvir la da praca.
Quase toda vez fazia calor, e quando fazia muito, ele podia ver as sombras das arvores fazendo bichos no chao. Assim era o melhor jeito de enxergar: tinha que subir na jaboticabeira, as vezes era dificil subir, mas ja dos galhos do meio voce olhava o banco de areia e os bichos apareciam. Bichos que nao se gostavam ficavam ali, um do ladinho do outro, bem comportados, so sombreando. Um lobo pequenininho do lado de uma ovelhona. Quando aparecia um gato, dava pra fazer um cachorro com a mao mesmo.
Melhor se era outubro, porque as jaboticabas matavam a fome das cinco, e dava pra ficar na praca ate mais que seis. Em mes que a arvore estava vazia, so se aguentava ate umas 4 e pouquinho, que as cinco a vo podia fazer bolinho de chuva, e nao tem brincadeira no mundo que seja melhor que isso.
Mas naquele dia ainda eram tres, e o chato era que o primo dele, aquele meio bobo que ve muita teve, queria fingir que as sombras eram bichos feios do espaco. Ele la achava que tinha bicho no espaco, coisa viva vive na terra, ue, que no espaco so tem estrela quente e planeta gelado!
Mas pior que ter o primo era ter que ir na escola. Era estranho, mas tinha alguma coisa naquele sino da escola. Na praca, o sino da igreja cantava as horas tao bonito, e as horas passavam tao rapido, que parecia uma melodia sem fim, uma hora cantada depois da outra. Na escola o sino so berrava, berrava no ouvido dos alunos quanto tempo faltava pra saida.
Aquele dia a mae disse que ele nao precisava de escola, e ele nem tinha pedido. Falou pra ele ir pra praca com o primo.
Ela e a tia estavam na cozinha com os olhos molhados, pareciam que nao queriam crianca perto, entao ele foi. Talvez fosse por causa da visita, ele viu que chegou o homem de branco no quarto da vo, era tao de manha que o sol nem tinha saido ainda. O homem ele conhecia, ele tinha um aparelho de ouvir coracao e dava bala. Foi ele que falou pra mae ligar pra tia, a mae sempre obedece o que ele diz, mesmo que ele mande comprar xarope.
Ele ainda dormia quando a tia chegou, entao de manha achou o primo sozinho na sala com a teve ligada e nao entendeu coisa nenhuma. Estava na cozinha comendo bolacha quando a mae veio e deu um abraco, um abraco muito molhado. Parecia ate domingo, a casa foi ficando cheia de parente quando ele e o primo foram brincar.
Foi quando soaram as tres horas que ele pensou em tudo isso, e pensou de ir ver se a mae e a tia ja podiam contar porque elas tinham que ligar pra tanta gente e fazer tanto cafe naquele dia. Se as duas nao quisessem ver crianca, ele podia ficar com a vo. Podia ver os dedos dela enrolarem o trico e rir dos barulhos que ela fazia dormindo. Ela andava dormindo mais e mais, e quanto mais ela dormia, menos mimo ela fazia, e o menino ficava triste sem saber porque. Foi quando soaram as tres horas que ele pensou em ver a vo. "Sera que ela vai fazer bolinho hoje?"
Entao puxou o primo pra casa, antes que pudesse lembrar da praca, do sino, do tempo ou das coisas que se perdem quando os minutos se vao. Porque dessas coisas ele ainda nem sabia.


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